{"id":2914,"date":"2019-09-30T11:44:15","date_gmt":"2019-09-30T14:44:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.handtalk.me\/?p=2914"},"modified":"2024-02-22T12:46:39","modified_gmt":"2024-02-22T15:46:39","slug":"surdo-e-autista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.handtalk.me\/br\/blog\/surdo-e-autista\/","title":{"rendered":"Meu filho \u00e9 surdo e autista. E agora?"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cTer um filho surdo me fez uma pessoa melhor, se n\u00e3o fosse ele eu seria uma m\u00e3e comum como qualquer outra, mas isso me fez forte\u201d.\u00a0<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Maria Ferreira tem 37 anos e \u00e9 m\u00e3e do William de 11, que \u00e9 surdo e autista diagnosticado. Militante h\u00e1 praticamente 10 anos na causa do autismo e h\u00e1 4 na causa dos surdos, conta sua hist\u00f3ria inspiradora com o filho \u00fanico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diagn\u00f3stico tardio, estudo da Libras, grupo de m\u00e3es, projetos que participa, desafios e conquista ao longo dos anos, resumem um pouco da entrevista que fizemos com ela e que voc\u00ea deve conhecer. Afinal, hist\u00f3rias como essa nos fazem ver o mundo de uma forma diferente e refletir no que podemos fazer para torn\u00e1-lo melhor. Confere a\u00ed!\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Hand Talk (HT): Como foi, para voc\u00ea, o per\u00edodo entre o nascimento do William e a descoberta de que ele \u00e9 autista?<\/b><\/p>\n<p><b>Maria Ferreira (MF):<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> O William nasceu no dia 28 de agosto de 2008 e n\u00e3o apresentava nenhuma condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, era uma crian\u00e7a perfeita. Tudo ocorreu de forma normal, como para todas as m\u00e3es casadas e com sonho de construir sua fam\u00edlia. Quando ele tinha quase dois anos, teve a primeira convuls\u00e3o, e j\u00e1 percebi uma mudan\u00e7a em seu comportamento. Pouco tempo depois ele teve uma segunda convuls\u00e3o, e a partir dali ele mudou completamente, se tornando uma crian\u00e7a fechada e reclusa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como ele estudava em uma escolinha particular, t\u00ednhamos a preocupa\u00e7\u00e3o com seu desenvolvimento, e foi a\u00ed que eles entraram em contato comigo, dizendo que ele n\u00e3o estava acompanhando a turma e que havia mudado. N\u00e3o queria mais interagir com os coleguinhas e as vezes ficava embaixo da mesa fazendo movimentos repetitivos. Levei ele primeiro na psic\u00f3loga, que j\u00e1 identificou tra\u00e7os de autismo, mas me direcionou ao psiquiatra para que o diagn\u00f3stico pudesse ser fechado, e ele confirmou. Meu mundo caiu! Fiquei desnorteada, mas n\u00e3o me paralisei e fui atr\u00e1s para entender como eu poderia ajud\u00e1-lo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Levei ele \u00e0 fonoaudi\u00f3loga, mas ele ainda n\u00e3o conseguia acompanhar a turma. Falava pouca coisa e seu desenvolvimento era bem abaixo das crian\u00e7as da mesma idade que a dele. Fui at\u00e9 a Associa\u00e7\u00e3o de Amigos do Autista &#8211; AMA, e l\u00e1 tive o primeiro contato com autistas mais severos. Busquei por tratamento, mas, como o caso era mais leve, se tratado junto com os demais correria o risco de por imita\u00e7\u00e3o o quadro dele piorar. Ap\u00f3s isso, protocolei uma carta junto a <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Secretaria de Estado da Sa\u00fade de S\u00e3o Paulo e <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">em menos de um m\u00eas conseguimos o tratamento no <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Centro de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade Mental &#8211; CAISM.<\/span><\/p>\n<p><b>HT: E quando a surdez entrou na hist\u00f3ria?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MF: Periodicamente ele realizava todos os exames. O BERA e o teste de audiometria sempre apresentavam resultados normais, mas a fono que cuidava dele disse que talvez ele pudesse ser surdo e que o autismo estaria interferindo no diagn\u00f3stico. Ent\u00e3o realizamos o BERA com ele dormindo e deu normal, mas ao fazer acordado constou uma altera\u00e7\u00e3o, sendo 80% de perda auditiva no ouvido esquerdo e 20% no ouvido direito. Surtei mais uma vez! Al\u00e9m do autismo, tinha a surdez agora. Me preocupava muito porque meu filho n\u00e3o tinha uma l\u00edngua e foi muito dif\u00edcil porque a <\/span><a title=\"Conhe\u00e7a a hist\u00f3ria da Libras, a L\u00edngua Brasileira de Sinais\" href=\"https:\/\/www.handtalk.me\/br\/blog\/historia-lingua-de-sinais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"font-weight: 400;\">L\u00edngua Brasileira de Sinais &#8211; Libras<\/span><\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> foi introduzida muito tarde. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Coloquei ele na escola onde est\u00e1 hoje e ele evoluiu muito. Em um ano j\u00e1 est\u00e1 fluente na Libras e tamb\u00e9m faz aula particular de portugu\u00eas e matem\u00e1tica. Depois que os diagn\u00f3sticos foram fechados, foi s\u00f3 ganho atr\u00e1s de ganho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>HT: Como \u00e9 ser m\u00e3e de uma crian\u00e7a autista e surda?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MF: O maior desafio foi na primeira inf\u00e2ncia, pois foi quando tive que abrir m\u00e3o de muita coisa em prol dele. Todo ganho cognitivo que ele tem hoje \u00e9 uma vit\u00f3ria, e isso se deve ao trabalho feito l\u00e1 atr\u00e1s, largando tudo para me dedicar ao tratamento dele. Quando eu descobri que ele era autista eu fui estudar, foram 2 anos de Teoria Aplicada ao Comportamento. Estudei a metodologia ABA (Applied Behavior Analysis) e tamb\u00e9m o m\u00e9todo <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">TEACCH (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Treatment and Education of Autistic and related Communication-handicapped Children<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> para trabalhar com ele em casa como Terapeuta Ocupacional, dando aux\u00edlio aos profissionais do CAISM.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Brasil vivemos a cultura da ignor\u00e2ncia, as pessoas n\u00e3o entendem, n\u00e3o v\u00e3o atr\u00e1s e acham que eles n\u00e3o ser\u00e3o capazes de se superar. O meu filho \u00e9 um exemplo de supera\u00e7\u00e3o nessa quest\u00e3o de aprendizagem e de condicionamento mental.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_2924\" aria-describedby=\"caption-attachment-2924\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2924 size-full\" src=\"https:\/\/www.handtalk.me\/br\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2019\/09\/WhatsApp-Image-2019-09-26-at-12.53.16.jpeg\" alt=\"Foto da Maria com seu filho William. Maria \u00e9 branca, possui olhos verdes e cabelos castanhos claros. Est\u00e1 usando \u00f3culo e sorrindo. William \u00e9 branco, possui cabelos castanhos curtos e sorri para a foto enquanto faz o sinal de &quot;I Love You em Libras. \" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/www.handtalk.me\/br\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2019\/09\/WhatsApp-Image-2019-09-26-at-12.53.16.jpeg 1280w, https:\/\/www.handtalk.me\/br\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2019\/09\/WhatsApp-Image-2019-09-26-at-12.53.16-300x169.jpeg 300w, https:\/\/www.handtalk.me\/br\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2019\/09\/WhatsApp-Image-2019-09-26-at-12.53.16-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/www.handtalk.me\/br\/wp-content\/uploads\/sites\/8\/2019\/09\/WhatsApp-Image-2019-09-26-at-12.53.16-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2924\" class=\"wp-caption-text\">Maria Ferreira com o filho William.<\/figcaption><\/figure>\n<p><b>HT: O que voc\u00ea descobriu ao passar a ter contato com o universo dos surdos?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MF: Nunca tive contato com surdos at\u00e9 ter o William. Foi algo totalmente novo e \u00e9 um universo maravilhoso. Eles t\u00eam uma comunidade, uma <\/span><a title=\"Comunidade surda: 5 fatos que voc\u00ea deveria saber sobre\" href=\"https:\/\/www.handtalk.me\/br\/blog\/5-fatos-comunidade-surda-libras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"font-weight: 400;\">cultura surda<\/span><\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e uma vida social muito extensa. Comecei a procurar mais informa\u00e7\u00f5es e grupos de m\u00e3es para saber como era viver com a surdez. Tive orienta\u00e7\u00e3o e quis aprender Libras. Fiz um curso b\u00e1sico e hoje fa\u00e7o aula particular.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 muito estranho porque \u00e9 a famosa <\/span><a title=\"Por que a surdez \u00e9 uma defici\u00eancia invis\u00edvel\" href=\"https:\/\/www.handtalk.me\/br\/blog\/surdez-invisivel-post\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"font-weight: 400;\">defici\u00eancia invis\u00edvel<\/span><\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. As pessoas ignoram os surdos, deixam eles de lado, mas no meu caso foi diferente. Eu quis aprender a l\u00edngua dele, porque se eu n\u00e3o conseguisse falar com ele, como ensinaria valores, aconselharia e andaria junto com ele? Eu teria um filho afastado de mim e eu n\u00e3o quero isso. Quanto mais aprendo eu percebo que ele conversa mais. Ele tem orgulho e fala para os coleguinhas que a m\u00e3e sabe Libras e os coleguinhas dele gostam de conversar comigo tamb\u00e9m.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>HT: Quais brincadeiras mais gostam e quais locais visitam juntos?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MF: O William \u00e9 bem evolu\u00eddo. Adora jogar FIFA e o Cristiano Ronaldo \u00e9 o \u00eddolo dele. A gente joga xadrez, lemos hist\u00f3rias juntos e uso o <a href=\"https:\/\/www.handtalk.me\/br\/blog\/como-usar-o-hand-talk-app-tradutor-de-linguas-de-sinais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aplicativo da Hand Talk<\/a> para traduzir algumas frases para ele. Apoio muito o desenvolvimento art\u00edstico levando em exposi\u00e7\u00f5es de artes e teatro. Quero aproxim\u00e1-lo ao m\u00e1ximo da cultura. \u00c9 isso que vai ficar de riqueza intelectual! Ele tamb\u00e9m gosta de desenhar e incentivo muito isso nele.<\/span><\/p>\n<p><b>HT: Conte um pouco sobre sua atua\u00e7\u00e3o na comunidade surda. Em quais projetos voc\u00ea est\u00e1 envolvida?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MF: Eu fa\u00e7o parte de um grupo chamado: &#8220;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Eumaedesurdo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eu&#8230; m\u00e3e de surdo<\/a>&#8220;<\/span>. Trocamos experi\u00eancias, desafios e descobertas. Fazemos picnics todos juntos tamb\u00e9m. Participo de alguns outros projetos. A gente lan\u00e7ou o Programa Jovem Aprendiz do Instituto Santa Terezinha, que oferece treinamentos para forma\u00e7\u00e3o de Programadores de Sistemas, Suporte T\u00e9cnico TIC (Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o) e Pr\u00e1ticas Administrativas para pessoas com Defici\u00eancia. \u00c9 uma forma de impulsion\u00e1-las ao mercado de trabalho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>HT: <\/b><b>Na sua opini\u00e3o, qual o papel dos ouvintes na inclus\u00e3o de surdos?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MF: Todos devem ser envolvidos!\u00a0 A primeira coisa que eu fiz quando eu descobri, foi ir atr\u00e1s de conhecimento. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental tanto para a crian\u00e7a como para a m\u00e3e. \u00c9 importante a m\u00e3e saber falar a l\u00edngua do filho para poder educ\u00e1-lo com dignidade. Existe dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia uma grande tend\u00eancia de isolar o surdo, e muitos deles mostram essa car\u00eancia dos familiares. A Libras deve ser algo que todos tenham contato, para que essas barreiras diminuam. \u00c9 necess\u00e1rio pensar no futuro dos surdos. Quando nos colocamos no lugar do outro e pensamos no pr\u00f3ximo, tornamos a sociedade mais justa e mais humana.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E a\u00ed, curtiu? Esse relato nos mostra a import\u00e2ncia de conhecermos o universo do outro, pois quanto mais conhecemos mais evolu\u00edmos como pessoas e os preconceitos s\u00e3o quebrados. Ainda h\u00e1 muito o que fazer e a mudan\u00e7a pode come\u00e7ar por voc\u00ea hoje mesmo.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTer um filho surdo me fez uma pessoa melhor, se n\u00e3o fosse ele eu seria uma m\u00e3e comum como qualquer outra, mas isso me fez forte\u201d.\u00a0 Maria Ferreira tem 37 anos e \u00e9 m\u00e3e do William de 11, que \u00e9 surdo e autista diagnosticado. 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