As Vozes das Mulheres Surdas

Mulher surda com um megafone fazendo sinal de protesto com a mão esquerda

Segundo pesquisas, existem hoje no Brasil mais de 10 milhões de pessoas com deficiência auditiva, sendo destas 46% mulheres.

Você deve imaginar que essa comunidade enfrenta dificuldades na comunicação até hoje, mas acreditem, já foi pior. Em 1880, no Congresso de Milão, foi proibido o uso das Línguas de Sinais na educação das pessoas surdas. Esta barreira não fez com que elas deixassem de se comunicar por sinais, mas atrasou a difusão da língua no país. Além disso, por um bom tempo, essas pessoas tiveram que se adaptar com as línguas orais, tanto na educação quanto em seus relacionamentos.

No Brasil, a Libras passou a ser reconhecida como uma língua apenas em 2002, depois de muitos anos de luta. Ainda assim, há uma grande falta de acessibilidade para pessoas surdas e com deficiência auditiva tanto nos meios virtuais como nos físicos. 

Mulheres surdas e a luta pelo lugar de fala 

Mantendo essas informações em mente, agora vamos trazer nossa lupa para elas. Como herança do patriarcado, a fala feminina muitas vezes não é reconhecida da mesma forma que a de um homem. Tão pouco é o mesmo respeito dentro de alguns ambientes de trabalho ou lares. Mulheres surdas enfrentam ainda mais dificuldade para quebrar o silêncio e serem ouvidas. Estudos revelam que possuem 1,5 vez mais chances de serem vítimas de assédio sexual, absuso psicológico e físico, do que as ouvintes

Uma vez vítimas de abuso, também encontram barreiras para denunciar. Segundo a página da Câmara Paulista para Inclusão da Pessoa com Deficiência, há inúmeros registros de queixas da falta de acessibilidade em Libras na Delegacia da Mulher, o que torna mais difícil a denúncia em casos de violência doméstica e outras formas de agressão. Muitas vezes a mulher surda é comparada a mulheres com deficiências em um caráter macro. Porém, quando isso acontece, está também comparando-as às ouvintes, o que discrimina sua língua e cultura. Diferenciá-las é importante, pois a mulher surda que utiliza essa língua deve ter seu direito de comunicação respeitado e precisa receber as informações da maneira mais adequada para ela.

Pensando nessa problemática, foi realizada uma pesquisa buscando reunir e explorar mais a fundo esse cenário, além da necessidade de conscientização. Os dados acenderam o alerta para o fato de que muitas vezes os atendimentos nesses estabelecimentos acontecem por intérpretes de Libras em níveis básicos, quando não apenas por sinais caseiros e mímicas. Como essas mulheres se sentem ao denunciar seus agressores e não conseguirem ser propriamente compreendidas e acolhidas?

Mesmo diante desse cenário triste, atualmente existem grupos feministas de apoio às mulheres surdas, para incentivá-las a escreverem suas próprias histórias e serem ouvidas. Isso se dá por meio de manifestações culturais, como na literatura, através de narrativas autobiográficas, performances poéticas em Língua de Sinais, escritas sobre si e performances em slam. Alguns exemplos de livros são: Bela do Silêncio, de Brenda Costa e Ser Surda, de Sílvia Andreis-Witkoski e Rosani Suzin Santos. Você pode encontrar outras referências no artigo “Eu sou surda, tenho minha voz: leituras sobre autoria feminina surda” publicado pela Revista Criação & Crítica, que nasceu da vontade de expressar a experiência dessas pessoas que não se associam somente ao corpo feminino, mas a um corpo que “foi objeto de violências e silenciamento”.

Para enriquecer a reflexão, convidamos você a ler o poema de Catharine Moreira, mulher surda e embaixadora da Hand Talk, que reflete a discussão realizada.

SOMOS INVISÍVEIS

O vento aqui bate forte 

Bate onda, bate mar, esparrama em bolhas… Bate forte… 

Mas sem barulho…

Força silenciosa.

Olho só é olho se for transparente 

Consegue ver?! 

O pensamento se prende …..no que é mais aparente 

É na voz que se eleva 

É no ouvido que se sente! 

O poder da orelha depende…

Olho só é olho se conseguir ver ……

Realmente… 

Cultura, comunidade, surdez, deficiente… 

Não aprende a língua 

A se comunicar não aprende 

Não aprende a ler 

Expressão, lábios… rosto… não aprende 

Sorriso 

Triste 

Grito 

Amor 

OLHA PRA MIM! 

Eu não sou uma piada,

Minha língua não é uma piada, 

O mundo não é perfeito, 

Todo humano tem defeito. 

A cultura da ignorância 

em prol de uma felicidade rasa e paz de espírito 

dos problemas fogem 

dos defeitos fogem 

da verdade fogem! 

Abre logo esse olho! 

Que do vazio eu grito… silencioso.

Vejo Lives sobre mulheres, 

e a violência, nudez, e a violência, 

olho roxo, e a violência, sangue,

e a violência, morte, e a violência, 

falta de comunicação, e a violência! 

Liga 180!!! 

Mas, eu sou surda… e a violência 

Liga e fala! Central de Libras! Ufa 

14 pessoas na linha como fila de espera para ser atendida…

O tempo era 2002, não tínhamos nem leis 

Intérprete era luxo maior do que hoje…

O tempo era AGORA aulas online sem acessibilidade, 

Abre esse olho bota legenda 

Nós fomos ignorados, prejudicados e excluídos por tanto tempo. 

Meu direito humano, e cidadão… por tanto tempo 

Somos invisíveis em plena luz do dia! 

Brincadeira de mal gosto 

Rejeição 

Surdo-muda 

Erros continuam agora como há 50 anos atrás. 

O que realmente enxerga é o coração  

O coração aqui bate forte! 

Bate raiz infinita 

Bate cultura e força 

Bate língua tão rica em conhecimentos 

TUM TUM TUM TUM (coração) 

BAAAAAAAAATE!!!