Cripface: como a representatividade incorreta prejudica a inclusão de pessoas com deficiência
Ah, os filmes com histórias de pessoas com deficiência! Muitas vezes inspiradores, alguns ganhadores de grandes prêmios, como o Oscar… mas muitas vezes, mesmo com boas intenções, acabam sendo capacitistas e praticantes de cripface.
Um estudo de 2018 revelou que, ao analisar os 100 filmes com maior bilheteria da ocasião, apenas 1,6% de todos os personagens tinham deficiência.
Esta representatividade poderia ser facilmente melhorada ao aumentar a presença de personagens com deficiência, certo? Mais ou menos. Um levantamento de 2016, feito pela Rudeman Family Foundation (organização dedicada ao ativismo da causa de pessoas com deficiências), apontou que 95% dos papéis de personagens com deficiência da TV americana foram interpretados por pessoas sem deficiência.
Quer entender mais sobre a relação entre capacitismo, cripface e representatividade? Neste artigo, vamos responder às dúvidas mais frequentes sobre o tema. Leia até o final!
O que é cripface?
Escrito também como “crip face”, o termo designa a prática de pessoas sem deficiência interpretando personagens com deficiência, que ocupam lugares que poderiam muito bem, e na verdade deveriam, serem preenchidos por PCDs.
E, caso você agora esteja se perguntando se cripface é capacitismo, a resposta é: sim! O cripface é uma prática capacitista utilizada, normalmente, em:
- 🔸Filmes;
- 🔸Séries;
- 🔸Peças de teatro;
- 🔸Publicidades;
- Entre outros materiais audiovisuais ou impressos que retratem PCDs.
Qual é a origem e significado do termo?
Cripface, que ainda não possui tradução exata para o português, é uma junção das palavras “crippled” (“deficiência”), e “face” (“rosto”).
Sua origem é semelhante à do termo “blackface’” que descreve a prática de uma pessoa branca se caracterizando por um personagem preto
Críticas e problemáticas do Cripface
Antes de tudo, é importante salientar: produções que dão visibilidade às pessoas com deficiência são sempre bem-vindas! Contudo, visibilidade não é o suficiente — é preciso garantir protagonismo.
A realidade é que uma pessoa sem deficiência, ao interpretar personagens com deficiência, certamente trará interpretações estigmatizadas e com estereótipos — como já vimos em diversas obras. Alguns exemplos mais comuns são:
- 🔸 Personagens com autismo com estereotipias exageradamente acentuadas — ou hiperinteligentes e brilhantes;
- 🔸Personagens com deficiência intelectual inexpressivos ou sem personalidade e vontades próprias;
- 🔸Personagens que usam dispositivos assistivos de forma inadequada (por exemplo, usando cadeiras de rodas destinadas para banho ao ar livre, ou maca hospitalar no lugar de cama hospitalar);
- Entre muitas outras.
Este tipo de prática acaba tendo o efeito oposto ao desejado: ao se apropriar incorretamente de narrativas, histórias e cultura dessas pessoas, a obra ridiculariza e desrespeita as PCDs, gerando ainda mais discriminação.
Dessa forma, as pessoas com deficiência não se sentem plenamente representadas e continuam sendo invisibilizadas.
» Veja também: 7 filmes sobre cultura e pessoas surdas que você precisa assistir
Como evitar o cripface: 5 soluções e boas práticas
1. Convide atores e atrizes com deficiência
Talvez a dica mais imediata seja: para uma representação autêntica, deixe que artistas com deficiência representem personagens com deficiência! Nada melhor do que uma pessoa dentro do seu lugar de fala atuando legitimamente sobre o seu universo. É uma oportunidade de dar voz às suas experiências, culturas e vivências, que poderiam trazer mais autenticidade e representatividade às histórias.
A deficiência não deve ser vista como um obstáculo para a carreira artística — o que impede são as barreiras de acessibilidade que vêm da indústria do entretenimento.
2. Entenda que a deficiência não define o artista
Para além da dica acima, um ponto fundamental é: não contrate artistas com deficiência apenas para interpretar PCDs — afinal, a deficiência é parte da pessoa, mas não a sua identidade completa. Como o próprio termo “pessoas com deficiência” traz, a pessoa vem antes de sua deficiência.
3. Valorize a real importância de retratar PCDs
Sim, toda diversidade precisa ser representada. Mas passou o tempo em que peças publicitárias com uma pessoa branca, uma negra, uma com deficiência, entre outros recortes, eram suficientes para considerar uma marca como “diversa”.
Então, se a sua intenção é retratar uma pessoa com deficiência na sua peça, que seja com propósito: tendo um papel relevante na história e contribuindo com a narrativa.
4. Tenha PCDs nos bastidores
Falamos bastante sobre atores e atrizes com deficiência, mas os bastidores também importam! Por isso, considere contratar PCDs para participar de todo o material, inclusive consultores de diversidade e inclusão. Afinal, quanto mais diverso um time é, mais criativo e com diferentes perspectivas ele pode ser!
5. Para isso, ofereça acessibilidade
Para incluir, é preciso oferecer acessibilidade nos estúdios ou locais de gravação. A instalação de rampas de acesso e contratação de intérpretes de língua de sinais são alguns exemplos de recursos que podem, e devem, ser usados para uma inclusão completa.
Um convite ao anticapacitismo: nos filmes, nas séries e na vida!
Séries e filmes são reflexos da nossa sociedade, por isso, o movimento e a atitude anticapacitista devem começar por nós.
Ser anticapacitista é oferecer ao outro a possibilidade de se expressar, e a tecnologia pode ser uma grande aliada nessa luta — especialmente no que diz respeito à comunicação.
O que acha de começar quebrando a barreira de comunicação com pessoas surdas, que usam a Língua Brasileira de Sinais, aprendendo seu idioma?
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